A viabilidade de empreender em tempos de crise é relativa ao tipo de crise e ao modelo comercial: em crises inflacionárias, como nos ano 90, com a quebra do bloco asiático, o fim da União Soviética e a guerra na África, o mundo enfrentou um desabastecimento e uma alavancagem violenta dos preços, o valor real dos produtos estava liquidado e muitos comércios fecharam suas portas, empresas foram vendidas por uma parte de seu rendimento e o poder de compra foi massacrado.

A crise atual acontece numa situação relativamente oposta: o problema não foi causado por uma falta de produção e/ou demanda, mas por uma oferta excessiva de crédito à altos juros, a explosão da bolha financeira tardou a chegar no Brasil, mas trouxe consigo indícios de inflação e, acima de tudo, recessão, ou seja, a falta de segurança em fazer investimentos devido ao receio generalizado nas instituições. Acontece que a recessão prolongada pode causar, além do desabastecimento, o desemprego, e esse ciclo pode alimentar novamente o primeiro modelo de crise citado, mas dessa vez, de forma artificial: os meios existem, mas falta coragem e confiança do mercado e, sem uma competitividade, algumas empresas maiores podem comprar outras e criar monopólios. O exato cenário dos anos 90 em maior parte do mundo.

 

Incrivelmente, uma das formas mais práticas e menos danosa de passar pela crise é fortalecendo as iniciativas pessoais de pequenos empreendimentos, de forma orgânica.

 

Mas Será Que Vale A Pena Empreender Em Tempos de Crise? 

Como exposto na abertura: o crédito barato à altos juros endividou inúmeras pessoas. Logo, empreender sobre produtos caros, que podem depender de financiamento ou parcelamento podem ser menos atrativos e difíceis para consumidores que, por mais que queiram consumir, não sentem muita segurança no pagamento prolongado.

Isso não é uma regra única, a economia depende de muitos fatores, as emoções do momento social podem influenciar muitas coisas, como disse o famoso economista J. M. Keynes. Investimentos ou consumo de produtos são mais afetados em pequena escala por otimismos espontâneos, movidos por moral, hedonismo ou o que quer que seja.

Um exemplo disso é o número de empreendimentos franqueados, que dão alguma segurança ao empreendedor por fornecer o nome e o know-how ou sobre como a indústria de cerveja é uma das poucas que tem crescido mesmo em pleno sentimento de recessão.

Saber interpretar mais variantes do que apenas projeções matemáticas e históricas é um ponto chave!

Empreendimentos que causem sensações positivas e reações assertivas tem muito mais chances de prosperarem do que aquelas que causem incerteza ou culpa.

 

Alguns exemplos práticos de meios que têm crescido dentro dessa circunstância:

Lojas de Produtos Naturais – Consumir produtos naturais, além de ótimo para a saúde e prevenção causa boas sensações em que consome. Ainda que alguns bens custem relativamente mais do que seus pares industrializados, eles eximem a culpa de se alimentar mal e ter outros hábitos ruins, dão o senso de prevenção, de supostamente depender menos de médicos e remédios. Basta observar como a “cura natural” tem se tornado febre na internet, por exemplo.

Mercados – Comida, artigos de higiene pessoal e limpeza são algumas das necessidades mais básicas de qualquer pessoa. Gastos dessa natureza, por mais que sejam reduzidos ou substituídos, nunca são cortados de vez, não podem ser.

Mercados vendem insumos para empreendimentos alimenticios. O número de ambulantes que vendem comida, de lanchonetes e outros tipos de comidas rápidas também tem crescido muito, uma vez que comida à preços populares jamais será considerado supérfluo, pelo contrário: é até uma opção para muitos.

Cervejarias Artesanais – O ser humano precisa de entretenimento, e a cerveja é um dos símbolos maiores da reunião de amigos, do merecido descanso no final de semana. Tomar uma cerveja sela um longo dia de trabalho, uma semana difícil e, dentre as bebidas de cunho alcoólico, é uma das mais acessíveis e socialmente aclamada no Brasil.

E não é apenas as grandes cervejarias que crescem. A fatia das cervejas artesanais também nunca foi tão alta.  Sendo a cerveja relativamente barata e os gastos menores com entretenimento justificáveis, especialmente em momentos difíceis, migrar das cervejas industriais que já enfadaram o consumidor que, com a crise precisou cortar outros gastos com entretenimento, como viagens e churrascos, por um preço relativamente pequeno é uma chance do consumidor médio ter mais experiências, mais distinção no consumo e, com isso, sentir-se mais convicto das escolhas que faz quando se entretém.

 

O Que é preciso para não falir? 

Empreendendo em tempos de crise, essa parece a pergunta de um milhão de dólares!

Muitas vezes essa pergunta deve ser respondida antes mesmo de o negócio se situar: você fez uma pesquisa extensiva do mercado para seu produto? Produtos de fato e alguns serviços, é claro, podem ser mais maleáveis, distribuídos à distância ou remotamente, como no caso de serviços online, produtos mais únicos ou colecionáveis, como bebidas e artigos de arte/decoração. Eles podem chegar onde alguns ramos não são capazes, como serviços de reparos em ambientes já saturados, estabelecimentos, lojas de produtos que geralmente dependem de financiamento ou parcelamento e podem ser encontrados na internet com descontos enormes.

Uma forma de não falir é saber se vale realmente a pena começar, pois, apesar de muitas vezes o consumo ser guiado por “otimismos espontâneos” como disse Keynes, um empreendimento pessoal, que não esteja ligado à uma cadeia distribuidora (como no caso citado das franquias e revendas), pode ter grandes chances de não se manter.

Outro fator é paciência. Aliás, mais do que paciência: perseverança; entender que nenhum retorno é imediato e que serviços e produtos precisam de tempo para serem absorvidos pelo mercado, pelo público. Esse processo não pode ser pulado e nem assimilado em excesso em sua vida privada, do contrário, a ansiedade pode frustrar seu descanso e lazer e a soma de tudo pode ser devastadora. Perseverar é estar aberto à qualidades muito sutis, como a sabedoria em entender um erro verdadeiramente, não como um fracasso, mas como uma necessidade de repensar aspectos. Entregar-se fácil à angústia de um erro é um caminho rápido para acabar metendo os pés pelas mãos e acabar perdendo na vida profissional e privada.

Os dois tópicos anteriores cabem ainda dentro de uma categoria maior: a administração. E essa

palavra tem muitas propriedades, não é possível usar o termo genericamente.

Cada aspecto passa pelo crivo de uma boa administração, quando ela possui uma dinâmica fluída e toma nota das coisas, dialoga com todos os agentes de seu empreendimento, colaboradores, consumidores, fornecedores, ele deixa de ser uma gerência (exercida por uma instância e acatada por outras), com grandes chances de falha devido à tensão do poder acumulado em uma única pessoa e torna-se um gestão, onde todas as partes sentem uma responsabilidade pelo bom uso e progresso da instituição e se reconhecem nela, em suas premissas, produtos e valores.

Outra parte de uma boa administração é a boa e velha parcimônia, a calma, resistir a tentação de colocar muitas fichas em poucas opções que podem ser efêmeras também ajudam a manter o negócio diversificado.

 

Empreender ainda é e continuará sendo um meio viável de alcançar independência, identidade e realizações, indiferente dos tempos de crise. É uma forma orgânica de resolver uma série de problemas econômicos e estimular a criatividade e confiança na sociedade!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *